quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ilusões...

(...) Caminhando pela avenida Paulista. De repente, a voz dele:
_ Sou casado.

Eu disse que ele era de família, mas não precisava exagerar.
Casado. Agora eu entendo aquela ansiedade toda. André devia estar apavorado com a possibilidade de ser visto por alguma conhecida, que ligaria para a mulher dele, que apanharia o revólver guardado na gaveta das calcinhas, que tomaria um uísque e um táxi, que entraria no bar e descarregaria a arma em mim, é claro, que mulher traída se vinga na rival e depois de absolvida ainda volta para o marido.
(...)
É muito difícil viver no dia seguinte quando alguma coisa dá errado na noite que passou. Nesta manhã pós-hecatombe, eu vim direto do aeroporto e continuo com a mesma roupa, mas amarfanhada está a minha auto-estima. Tento me concentrar na revisão de alguma matéria desinteressante. O telefone tocando há horas não deixa. Atendo.
_ Queria saber se você chegou direitinho.
André Casado. O responsável pelo estado de putrefação da minha alma ligando para saber notícias. Posso ver todos os planos de nunca mais falar com ele entrando pelo fio do telefone. Não precisa mais de dez segundos para André reconquistar o que não foi dele. Pouco tempo depois, quem diz tchau com uma voz aveludada não sou eu, é uma nova mulher, segura e confiante. Quase uma Marília Gabriela.
(...)
André vem no final de semana. Isso justifica eu estar agora em uma loja relativamente cara fazendo um relativo estrago no meu cartão de crédito. Quase que eu me apaixono por mim mesma com esta saia que acabei de comprar. Se André resistir desta vez, pode me chamar de Delçolina Terezinha.
Dez da noite. Eu e minha saia nova esperamos no aeroporto. Uma vez alguém me disse que eu merecia uma nota oito e meio, mas acho que hoje encostei nos oitos vírgula seis. Nenhum executivo de pastinha, desses que vão e voltam no mesmo dia, passa por mim sem dar uma boa conferida. (...)
O plano de ir a um bom restaurante foi adiado para depois que André conhecer meu apartamento. É contra meus princípios levar um homem que não é meu para dentro de casa, mas André beija mordendo e morde beijando tão bem, que, às seis da manhã, quando ele finalmente vai embora, você pode me chamar de qualquer coisa, destruidora de lares, inimiga das esposas, bug da família, menos de Delçolina Terezinha.
Agora eu funciono em duas graduações: quando ele está comigo e quando ele não está.
Quando André está comigo parece que é sempre Natal. Primeiro porque ele chega cheio de presentes e eu espero com muitos outros. É aquela fase da paixão em que amar é pouco, tem que fazer dívidas, abrir contas, inaugurar carnês. Segundo porque André sempre me encontra de roupa nova e perfume atrás da orelha. Terceiro, porque quando os beijos dele começam e os abraços não terminam, eu tenho a certeza de estar sendo recompensada por ser uma boa menina.
Mas na maior parte do tempo ele não está comigo... Sem André eu não quero sair, não quero cinema, não quero ler, não quero banho, nada disso.
(...)
Quase um ano de namoro como todos os outros, com planos de morar na mesma casa, viajar bastante, ver um vídeo no domingo à tarde. O único problema é que André já faz tudo isso com a mulher dele.
Tanto insisti que acertamos um prazo. Ele vai resolver a situação e passar o final de ano comigo. O melhor final de ano dos meus últimos trinta.
Já aluguei uma cabana em Santa Catarina, o vestido branco está comprado e os champanhes também. Ele vai chegar às cinco da tarde. Pego primeiro o André, depois a estrada. E a cada segundo me pego pensando que finalmente vou viver feliz para sempre com alguém.
Estranho é que desde hoje cedo André não atende meus telefonemas, nem responde meus recados. Não posso ligar para a casa dele, não sei se a mulher já foi ou se está demorando de propósito para fazer as malas. Um alarmista qualquer, obviamente não é meu caso, começaria a desconfiar que algo deu errado.

Eu sou um alarmista qualquer
Algo deu errado.

São quatro horas e eu já estou no aeroporto. Se ele não ligou desmarcando é porque vem. Não existe outra hipótese.
Cinco para as cinco, meu telefone toca.
_ Eu não vou.

Não me pergunte como foi meu final de ano que eu não vi.
Estou levantando neste minuto, quase três da tarde do dia primeiro. Sei que bebi uma garrafa de champanhe quente e fui para a cama.
Engraçado, alguém atirou os livros da estante no chão, virou todas as gavetas, quebrou alguns copos aqui em casa. Não pode ter sido eu, não lembro de ter feito nada disso.
E ontem à noite? Ouvi fogos, explosões, pessoas gritando. Só falta a terceira guerra ter começado.
Aos poucos a amnésia vai passando.
Queria que ela não fosse embora nunca.

Se eu disser que houve uma reconciliação e outra separação e mais uma volta e depois uma briga e outra volta e nova separação, se eu disser tudo isso vai ser só para adiar um pouco mais o fim.

Fim.

(trechos do livro Dez (quase) amores, de Cláudia Tajes)

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